We’ll Always Have Paris, de Ray Bradbury

Foi totalmente por acaso que eu encontrei esse livro outro dia na Saraiva do Shopping Paulista, aqui em São Paulo. Eu estava com minha irmã dando uma xeretada na prateleira dos livros em inglês quando ela de repente pegou um livro e perguntou:

– Esse não é aquele cara que escreveu aquele livro do circo?

E eu respondi:

– Sim! Deixa eu ver!

Bom, “aquele cara” era Ray Bradbury, e “aquele livro do circo” era Algo Sinistro Vem Por Aí, que ela pegou emprestado de mim há algum tempo e gostou muito.

Confesso que acabei levando We’ll Always Have Paris mais por causa do autor mesmo, sem nem mesmo ver sobre o que se tratava.

Tive uma grande surpresa ao começar a ler essa antologia lançada em 2009 e composta por vinte e dois contos inéditos de Bradbury e me dar conta de que a grande maioria não se trata de contos de ficção científica. Muito pelo contrário, quase todos os contos tratam do cotidiano, de situações vividas no dia-a-dia, de coisas quase insignificantes a um observador comum. A grande diferença aí é que Bradbury não é um observador comum, e sabe como contar excelentes histórias, sejam elas de ficção científica ou não.

Logo na introdução, Bradbury nos diz que We’ll Always Have Paris é o resultado do trabalho de duas pessoas: o Bradbury que observa e o Bradbury que escreve. Ele também nos adverte que as histórias não foram planejadas, mas simplesmente foram explosões ou impulsos de pensamentos que ele acabou pondo no papel.

O resultado desses impulsos é um livro pequeno e notável. Bradbury sabe o que faz. Mesmo quando a história não é tão interessante assim, seu jeito de escrever e sua habilidade com as palavras é de dar inveja, fazendo o leitor se envolver profundamente.

Na introdução do livro, ele também diz: “Espero que aproveitem essas histórias. Não pensem muito nelas, apenas tentem se apaixonar por elas, assim como eu me apaixonei.”

E foi mais ou menos isso que tentei fazer durante a leitura. Sem procurar “porques” ou explicações para os fatos mais bizarros. Apenas li e aproveitei.

Dentre as vinte e duas histórias, algumas são obras-primas:

Massinelo Pietro: uma história real que fala de um vendedor de bairro barulhento e bagunceiro que é odiado pelos vizinhos. Até o dia em que ele desaparece e passa a fazer falta.

The Visit (A Visita): para mim, a melhor e mais tocante história do livro. Conta o encontro entre um rapaz que passou por um transplante de coração e a mãe do rapaz que doou o coração. Simplesmente linda.

We’ll Always Have Paris (Sempre Teremos O Que Aconteceu Em Paris): o título é também uma famosa frase do filme Casablanca, e aqui uma situação vivida no filme é mais ou menos recontada. Um homem sai para passear à noite em Paris e tem um encontro romântico inusitado.

Pietà Summer: uma história simples e maravilhosamente tocante sobre o amor e a admiração de um filho por seu pai. Começa de maneira tão simples e termina de maneira fantástica.

Fly Away Home (no contexto do conto, podemos traduzir como “Um Lar que Voa Para Bem Longe”): essa é tão “Crônicas Marcianas” que eu fui dar uma olhada no livro para confirmar que não estava lá. Não está. Ficção científica passada em Marte mostrando o começo da colonização. Imperdível.

Un-Pillow Talk: sabe aquela história de ficar conversando na cama e fazendo planos com a pessoa amada? Isso é o tal “pillow talk”. Essa história é justamente o oposto disso. Mas é simplesmente apaixonante.

If Paths Must Cross Again (Se os Caminhos Se Cruzarem Novamente): um casal que acaba de se conhecer descobre que conviveram na mesma vizinhança e tiveram conhecidos em comum algum tempo antes. História bonitinha.

A Literary Encounter (Um Encontro Literário): um homem apaixonado por literatura cuida do seu relacionamento de acordo com o estilo ou autor que está lendo no momento. Genial.

Ao mesmo tempo em que penso que é impresisonante ver um autor como Bradbury, já com a idade tão avançada, produzindo coisas tão belas e tocantes, penso que somente a sabedoria dos que já viveram muito (e bem) é capaz de produzir histórias assim. Esse livro é daqueles que pode ser lido e relido inúmeras vezes, sem nunca perder a magia da primeira leitura.

Uma resposta para We’ll Always Have Paris, de Ray Bradbury

  1. Ray Bradbury é um escritor bem versátil. Tem em português o Vinho da Felicidade, que é quase um conjunto de cronicas.

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