As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica

Dando continuidade a seu trabalho de resgate de importantes textos da Ficção Científica Nacional, o crítico e escritor Roberto de Sousa Causo organizou junto ao Selo Pulsar da Devir Livraria este As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica. A iniciativa é muito interessante, tendo começado em 2007 com Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica e o posterior Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica – Fronteiras, todos editados por Causo dentro do mesmo Selo Pulsar.

Neste mais recente volume, o leitor passa dos “contos”, geralmente histórias curtas e diretas, com um aproveitamento menor dos personagens, para a “novela”, que “pode ser a extensão perfeita para uma história de ficção científica: longa o bastante para encorpar os detalhes de um estranho mundo alienígena ou de uma bizarra sociedade futura, para dar a tais ambientações alguma profundidade, complexidade e peso… e ainda assim ser curta o bastante para que a história tenha uma força real.” (Gardner Dozois, premiado editor norte-americano, na contra-capa do livro)

O livro apresenta quatro trabalhos muito bons. É claro que qualquer um que tente reunir “os melhores” de alguma coisa vai encontrar resistência e opiniões contrárias. Eu realmente não tenho conhecimento para determinar quais são as melhores novelas (ou noveletas) já publicadas por autores brasileiros. Tenho as minhas preferências, claro, mas de todo modo aceitei de bom grado as sugestões do organizador do livro.

A primeira novela é Zanzalá, de Afonso Schmidt, que retrata uma região no Brasil de 2028 (quase cem anos após a publicação original). Eu confesso que, a princípio, tive um pouco de dificuldade com essa leitura. É um texto lento e um pouco complicado. Digamos que o leitor demora a se encaixar no contexto. Da metade em diante, a coisa começa a fluir melhor. Ainda assim, o texto não tem um roteiro, uma ação definida. O autor simplesmente apresenta a sua visão de como o mundo seria dali a cem anos. Vemos um Brasil diferente, com uma vida pacata e até mesmo bucólica, comunidades pequenas, onde tem-se a impressão de que todos se conhecem. O autor afirma que em 2028 não se come carne, a energia é produzida de forma limpa, animais comuns como cavalos e bois estão praticamente extintos, as religiões perderam espaço, a Europa se barbarizou. A sociedade, apesar de ter bastante tecnologia, vive de forma simples e um tanto alienada. Momentos críticos e tensos são logo esquecidos e trocados por festas e celebrações. A impressão que dá é que, ao mesmo tempo em que evoluiu em certos pontos, a sociedade foi ficando mais leviana. Destaque para a “guerra” entre Zanzalá e os Caborés e para o sequestro do cavalo. Ao final da leitura, há alguns momentos tocantes e uma certa sensação de que o texto é muito bom. Acho que valeu passar da primeira metade.

O texto seguinte é o excelente A Escuridão, de André Carneiro, sem dúvida uma das melhores histórias que eu já li. Não só no Brasil, estou incluindo aí Asimov, Clarke, Bradbury e outros. De repente o mundo começa a escurecer. Sem motivo e sem explicação, o Sol vai perdendo sua força, ficando avermelhado, ao mesmo tempo em que as lâmpadas, o fogo, até os vaga-lumes, isto é, tudo que pode produzir luz, se apaga. O mundo passa a viver numa escuridão total, onde somente os cegos podem oferecer algum auxílio. O texto é envolvente, cheio de momentos de tensão e suspense. Em determinado trecho, lemos sobre o protagonista: “Estava só em um mundo limitado pelo comprimento de seus braços.” Sentiram? Muito bom mesmo.

Em seguida, temos o 31º Peregrino, de Rubens Teixeira Scavone. Este texto é uma homenagem ao escritor inglês Geoffrey Chaucer (século XIV) . Scavone se apropria da voz do inglês para narrar uma outra história que supostamente foi omitida da versão final de The Canterbury Tales, obra maior de Chaucer. Nesta história, conhecemos uma peregrina que alega ter visões e receber visitas de entidades desconhecidas. Um texto muito bom e muito bem escrito. A linguagem é extremamente erudita, como um texto do século XIV seria. O começo é um pouco lento, provavelmente mais por causa da apresentação dos personagens e pela linguagem rebuscada. Em determinado momento, o autor escreve: “E aqui se inicia o conto do trigésimo terceiro peregrino.”. E aí a coisa fica legal.

Por fim, temos A Nós o Vosso Reino, de Finisia Fideli, uma noveleta que traz à tona situações tipicamente brasileiras misturando religião e ficção científica de maneira brilhante. Há um forte viés feminista no texto, com duas das principais protagonistas sendo mulheres fortes e marcantes. Miranda, a protagonista, recebe o convite de seu professor de ioga para frequentar as reuniões de um guru espiritual, que alega ter conhecimentos sobre o fim do mundo iminente e prega a paz e uma nova ordem mundial. Essa é uma situação até comum, afinal, quanto de nós nunca ouvimos falar de tais gurus? A noveleta toma contornos de suspense e ficção científica ao mesmo tempo em que a protagonista começa a colocar em dúvida os reais motivos do guru. Esse é um texto forte e envolvente. A sequência final, uma perseguição saindo de Itapecerica da Serra até o Butantã, numa situação bem conhecida de todos os paulistanos, é fantástica.

Bem, como eu disse lá em cima, não posso julgar se essas são realmente as quatro melhores novelas de FC já escritas no Brasil. O que eu posso afirmar, isso sim, é que este livro é muito bom. Os quatro trabalhos são verdadeiras obras-primas e o livro merece ser lido. É o tipo de livro que tem valor histórico, por reunir obras que, muito provavelmente, não estarão para sempre disponíveis por aí. Recomendo fortemente a leitura.

3 respostas para As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica

  1. Roberto Causo disse:

    Oi, Daniel. Agradeço muito a resenha e todas as suas opiniões sobre as quatro histórias. É claro, assim como “Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica” teve e terá continuidade, ampliando a sua lista dos “melhores”, o projeto da Devir prevê que novos volumes das “Melhores Novelas” também apareçam, de modo que essas quatro não são a minha sugestão das quatro melhores de todos os tempos, mas apenas quatro dentre as melhores — ou quatro candidatas a pertencer a uma lista que, pretendemos, deverá continuar crescendo nos próximos anos.

    • Daniel Borba disse:

      Olá Causo, esse trabalho da Devir merece sim ser continuado. Não podemos deixar as coisas boas que o Brasil já produziu serem esquecidas…

      • Roberto Causo disse:

        Nossa intenção é essa: manter essas obras vivas, apresentando-as a novos públicos, e colocar as coisas em perspectiva, em termos de ficção científica brasileira.

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