Páginas do Futuro

Páginas do Futuro é uma antologia de ficção científica organizada por Braulio Tavares, conceituado escritor e compositor paraibano. O livro saiu pela Editora Casa da Palavra, no finalzinho de 2011 e eu, certo de que não haveria um lançamento em São Paulo, corri a comprar o meu pela internet.

Acontece que eu estava errado, e sim, houve um lançamento em São Paulo, ao qual tive a oportunidade de ir, num raro momento de folga do trabalho. O tempo voa, o evento foi há longínquos dois meses, e eu perdi a oportunidade de comentar o bate-papo agradável entre os autores, contando as histórias que os inspiraram a escrever os contos selecionados para o livro.

A figura de Braulio Tavares, por si só, já é um baita incentivo para qualquer um adquirir o livro (ou prestigiar um próximo lançamento). Seu conhecimento sobre literatura, não só na área de ficção científica, é assombroso. E seu jeito de contar as histórias é divertidíssimo.

Bem, depois de ler o livro quase todo na noite do lançamento, e enrolar um bom tempo, me propus a colocar aqui minhas impressões sobre ele.

O livro é uma pequena obra-prima em todos os sentidos. Gostei de tudo: a seleção dos contos (brilhante!), a apresentação e as ilustrações (de Romero Cavalcanti) que são lindas.

Páginas do Futuro começa com uma apresentação de Braulio Tavares, um texto onde se discute as origens da ficção científica, tanto internacional quanto nacional, incluindo comentários sobre os contos selecionados. O mercado editorial e a formação do escritor brasileiro de FC também são abordados no texto, de maneira bem crítica. Todo escritor, ou aspirante a escritor, deveria ler essa apresentação.

O conto que abre o livro é Ma-Hôre, de Rachel de Queiroz. Nessa aventura que começa em um planeta distante e termina numa espaçonave retornando à Terra, vemos o encontro entre duas civilizações em estágios diferentes de evolução. O leitor se identifica facilmente com a criatura menos evoluída. A maneira simples, quase ingênua, com que o conto é narrado esconde um final surpreendente. Um dos melhores do livro.

Em seguida, temos Veja Seu Futuro, de Ataíde Tartari, um conto que já tinha lido num dos livros do projeto Portal, organizado por Nelson de Oliveira. O texto é uma homenagem feita pelo autor à série Além da Imaginação. Assim como no saudoso seriado, vemos pessoas normais em situações inusitadas, brincando com a nossa realidade. Nesse caso, um homem descobre no centro de São Paulo uma máquina capaz de prever o futuro e passa a viver em função dessas predições. Muito legal.

O Fim do Mundo, de Joaquim Manoel de Macedo, é o conto mais antigo do livro. Escrito em 1857, conta a passagem de um cometa que destroi o mundo, ou pelo menos o Rio de Janeiro. Narrado em primeira pessoa, mostra a visão do protagonista quando consegue voltar à sua cidade, depois de ter se escondido na Lua (!) até que a poeira baixasse. Bem humorado, cheio de situações inusitadas, mostra uma visão curiosa da destruição do mundo. Gostei bastante desse.

O conto seguinte é O Inimigo Gaseificado, ou A vingança do Sr. Concreto, de Oswald Beresford, autor que se suicidou em 1924 após ter a tiragem inicial de um de seus romances queimada pelo próprio pai. O conto tem um lado cômico forte, mostrando a disputa entre dois empresários rivais, num futuro indefinido. O destaque cômico é a nova tecnologia, explorada por um dos empresários, com a qual ele ajuda os desgostosos com a vida a cometerem suicídio.

O Quarto Selo, de Ruben Fonseca, é um conto policial, ou de espionagem, não consegui definir bem. Passado no Rio de Janeiro, num futuro não muito distante, mostra um jogo de traições um tanto confuso. Esse conto foi o único com o qual eu realmente não me identifiquei no livro. Ainda assim, o último prágrafo, sarcástico ao extremo, é um desfecho ótimo.

Exercícios de Silêncio, de Finisia Fideli, é o conto que mais gostei. Novamente um choque entre civilizações. Um astronauta com problemas cai num planeta bem atrasado tecnologicamente, mas muito avançado intelectualmente. Ele precisa de todo modo encontrar um meio de consertar sua nave e descobre que seus conhecimentos científicos muitas vezes não servem para nada diante do poder de concentração e meditação dos habitantes daquele planeta. A autora afirma que teve a inspiração para escrever esse conto ao assistir um programa sobre o Tibet. A inspiração está lá, bem presente, e a mistura entre ciência e misticismo, que eu considero extremamente traiçoeira, foi brilhante nesse caso. Um dos contos mais belos que eu li nos últimos tempos.

Uma Breve História da Maquinidade, de Fabio Fernandes, conta uma história alternativa cheia de referências históricas e fictícias. Uma história muito boa. Começando no século XIX, vemos o mundo sendo moldado sob a influência de máquinas e robôs inteligentes. Temos uma espécia de revolta das máquinas, como em Matrix ou O Exterminador do Futuro, mas com uma roupagem steampunk.

O conto seguinte é Vanessa Von Chrysler, de Fausto Fawcett,uma verdadeira viagem. Um rapaz adquire num leilão, uma jovem alemã congelada desde 1940. Ao descongelá-la, eles passam a viver todo tipo de aventuras num Rio de Janeiro com espírito cyberpunk. Ou não. Sei lá. O conto é uma ótima leitura, mas uma bagunça e uma confusão de tirar o fôlego. O autor usa palavras para jogar imagens atrás de imagens na cara do leitor. E o resultado é muito bom.

Do Outro Lado da Janela, de Andre Carneiro, é um conto curtinho, mas poderoso. Um alerta sobre a mesmice que pauta muitas vidas, sobre o que nos prende ou o que nos consome. Também cairia bem num episódio de Além da Imaginação, assim como o conto de Ataíde Tartari.

Déjà-Vu, de Luiz Bras, é um conto que eu já conhecia do livro Contos Imediatos. É uma aventura de guerra, num planeta distante. A luta por um artefato que pode decidir a guerra. O diferencial é que a história é contada de trás para frente. Eu já havia gostado desse conto da primeira vez que o li. Li mais umas três ou quatro vezes, e cada vez gostei mais. Cada leitura revela um novo detalhe. Um dos maiores acertos desse livro.

O Copo de Cristal, de Jerônymo Monteiro, é outra pequena joia. Um copo de cristal quebrado encontrado no meio do mato se revela um portal que mostra imagens de outro mundo ou de outra época. Sua origem é um mistério, e o mundo que ele mostra também. Uma narrativa simples e envolvente. Esse conto está presente no Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, editado por Roberto de Sousa Causo pela Devir Editora.

15 Minutos, de Ademir Assunção, é outro conto maluco. Usando o Unabomber, o famoso terrorista americano, como referência, o autor brinca com frases soltas e uma narrativa visual cheia de metáforas. A inspiração, segundo o próprio autor, veio com o próprio Unabomber, e como ele queria fazer sua mensagem chegar a todas as pessoas.

Páginas do Futuro é uma antologia muito boa. A qualidade dos contos é excelente, e é um livro que deve servir de exemplo aos novos escritores, tanto pelos temas apresentados quanto pela qualidade com que os autores escrevem.

É um livro de ficção científica e, obviamente, ela está presente em todos os contos. Mas muitas vezes é escondida pelas excelentes narrativas. Você não precisa ser um apaixonado por FC para apreciar esse livro. Veja só, não é uma excelente ideia de presente para promover esse gênero tão surrado e injustiçado?

2 respostas para Páginas do Futuro

  1. hannysaraiva disse:

    Hum, fiquei com vontade de ler… mas achei estranho Rubem Fonseca estar no meio de FC. Eu adoro o Rubem Fonseca, mas Rubem Fonseca e ficção científica? Uau…isso é novidade pra mim, rs.

    • Daniel Borba disse:

      Segundo o Braulio Tavares, organizador deste livro, Ruben Fonseca eh um leitor aviso de FC, mas que prefere escrever policiais. Essa foi apenas uma “aventura” dele na FC.

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