Extraneus Volume 2: Quase Inocentes

Já faz algumas semanas que li o segundo volume da série Extraneus, das Editoras Estronho e Literata. Este, que traz o subtítulo Quase Inocentes, é uma reunião de quinze contos cuja temática invariavelmente trata de crianças problemáticas, com uma maldade intrínseca às suas personalidades.

Achei a ideia interessante. Bem interessante, mas um tanto perigosa. O risco era grande de todos os contos cairem sempre no mesmo lugar, com as mesmas coisas previsíveis. Seria complicado pro organizador, o M. D. Amado, selecionar as histórias mais significativas.

Na minha opinião, o resultado ficou bom. Não ficou excelente, porque realmente algumas histórias caíram na mesmice, o que tira um pouco o impacto do livro. Esse efeito, felizmente, atinge só alguns dos contos, e dentre os que não são atingidos por ele, há alguns muito legais. Eu acho que perde um pouco para o primeiro volume da série, Medieval SciFi, e alguns até poderiam justificar isso pela minha preferência pelo gênero da FC. Pode ser, mas independentemente disso, este Quase Inocentes é um bom passatempo. A leitura vai fácil e os mais medrosos certamente vão sentir alguns arrepios, ou reler alguns trechos com um certo horror no olhar.

Visualmente, o livro segue o excelente padrão da Estronho, dessa vez com ilustrações bem simples, como desenhos de criança. O prefácio é de Martha Argel, com uma excelente introdução aos contos.

Vou comentar um pouquinho sobre cada um dos contos:

  • Dentinho, de Georgette Silen: um policial bem intencionado encontra uma menininha sozinha na rua, agarrada a seu ursinho de pelúcia. Logo oferece ajuda, mas é supreendido ao levar a garota de volta aos pais. Uma boa abertura para a antologia. Dá um belo susto, e uma sensação de pavor logo de cara.
  • Criança Noturna, de Giulia Moon: a rainha dos vampiros não foge de seu tema preferido nessa história horripilante de uma garotinha vampira que adora colecionar troféus de suas vítimas. A garota tem uma maldade ingênua que quase chega a comover. Gostei.
  • Corações Negros, de M.D. Amado: uma mistura de histórias interligadas mostrando crianças que de uma maneira ou outra são simplesmente… más. São situações curtas, e incrivelmente arrepiantes. Bacana.
  • Vestido Cor-de-Rosa, de Camila Fernandes: história de uma garota da periferia que sofre abuso do pai. Dramático e chocante.
  • A Revelação Kyngá, de André Bozzetto Jr.: um homem desesperado acaba sacrificando muito mais do que podia para salvar a vida da filha com câncer. Nesse caso, a criança não é má. Ela apenas foi transformada numa criatura má. Muito bom.
  • Guardian Angel, de Luciana Fátima: conto bonitinho sobre um menino que faz o mal, achando que faz o bem. Talvez seja uma história que precisasse de mais espaço (ou tempo) para ser contada.
  • O Presente de Berenice, de Adriano Siqueira: já havia lido essa história em Adorável Noite, livro solo do autor. Neste caso, não há bem maldade na atitude das crianças. Elas são até boazinhas, mas sabem tirar proveito da situação. Tudo começa quando uma garota ganha um conjuntinho de brinquedos de praia e vai até a casa do vizinho (sempre em reforma), em busca de um pouco de areia.
  • Loucos, Ossos, Passos de Sopro, de Lucas Rezc: história de terror passada num navio pirata. Uma menina é encontrada à deriva e trazida a bordo, causando uma sucessão de eventos estranhos.
  • O Grande Estopim para a Vida Criminosa de Alice Carmesim, de Luísa Vianna: provavelmente a história que mais gostei no livro. Uma garotinha, filha de famosa atriz de filmes de terror, cansa de ser apenas uma espectadora, e resolve fazer a “vida imitar a arte”. Criativo e assustador. Beeem legal.
  • Brincadeiras de Criança, de Juliano Sasseron: esse conto foge do terror que estamos esperando. Mostra o sofrimento de uma criança cujo amor não é correspondido. Numa tentativa desesperada de chamar atenção, acaba tomando uma atitude que pode marcá-lo para sempre.
  • Os Servos de Thoth, de Ana Lúcia Merege: o aprendiz de um sacerdote acredita estar agindo de acordo com a vontade dos deuses, mas acaba na verdade praticando um ato de extrema crueldade. Bacana.
  • O Poço das Harpias, de Celly Monteiro: uma jovem se vê forçada a viver indefinidamente num poço habitado por harpias. Anos depois, retorna para se vingar do homem que a condenou ao sofrimento. Gostei desse também.
  • Reversões, de André Carreiro Fumega: três meninos conhecidos em toda a vizinhança por serem crueis e maltratarem os animais têm uma surpresa ao deixarem de ser os caçadores, tornando-se as presas.
  • Duas Crianças, Duas Chaves, de Felipe Pierantoni: numa luta entre aldeias rivais, os filhos dos líderes se veem obrigados a lutar até a morte pelo poder.
  • Caindo no Despertar, de Suzy H. Hekamiah: garoto sofre a perda dos pais e é “adotado” por um vampiro. Descobre, a duras penas, como é solitária a vida de um ser como ele.

Algumas das histórias presentes neste Extraneus – Volume 2 são bem legais mesmo. De um modo geral, acho que a leitura vale pelo clima de terror, suspense e calafrios que estão presentes em cada um dos textos.

5 respostas para Extraneus Volume 2: Quase Inocentes

  1. Obrigada pela apreciação. Thoth agradece. Os babuínos também.🙂

  2. M. D. Amado disse:

    Valeu pela resenha, Daniel. Reforço o que lhe disse pessoalmente. Você aponta erros e acertos sem precisar detonar ou puxar o saco de ninguém. Excelente resenha, como sempre.

    Abraços horripilantes!

  3. Celly Monteiro disse:

    Hmm, acho que vc não entendeu o meu conto, falha minha.😦 Mas ainda assim adorei a resenha. Obrigada pela leitura, Daniel.

  4. Luísa Vianna disse:

    Hahaha, que engraçado ler isso. Acho que escrevi esse conto quando tinha uns 16 anos. Nunca tinha escrito terror, mas estava numa onda de participar de concursos, rs. Hoje estou com 23 e minha irmã mais nova começou a escrever, então resolvi procurar uma foto do livro pra mostrar pra ela e achei esse blog. Que legal! Obrigada!

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