The Marching Morons

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The Marching Morons, de C. M. Kornbluth, é uma novela de ficção científica distópica publicada em 1951, passada muitos séculos à nossa frente, no ano 7-B-936. Isso mesmo, numa época tão distante que nem faz referência ao nosso calendário.

O corretor de imóveis John Barlow, que desde 1986 vivia em animação suspensa graças a um acidente esquisito durante um tratamento dentário (um choque elétrico misturado à anestesia) acorda num mundo estranho onde acidentes estúpidos acontecem, as coisas não fazem sentido e as pessoas parecem totalmente sem noção. É exatamente essa a impressão que Barlow (e, por consequência, o leitor) tem ao observar as atitudes da população.

No decorrer da história, é explicado o que faz com que tudo pareça estranho. Devido a um processo no mínimo questionável, no qual as pessoas inteligentes tinham poucos filhos, e as pessoas idiotas tinham muitos filhos, o mundo foi sendo aos poucos dominado apenas por pessoas idiotas. O resultado é uma população de 5 bilhões de pessoas com QI médio de 45, contra uma minoria inteligente de 3 milhões de pessoas que fica escondida no Polo Norte, tentando consertar as barbaridades que acontecem no “mundo dos idiotas”.

Barlow, um corretor que nunca mediu esforços para levar vantagem em suas vendas, surge com uma proposta para acabar com os idiotas, em troca de receber o título de “Ditador do Mundo”.

Recebi a indicação dessa leitura através do site da Amazon (ah, o maravilhoso mundo das ofertas baseadas no perfil das suas últimas aquisições!), e o que mais me interessou foi o fato dessa novela ter entrado no segundo volume do Science Fiction Hall of Fame, como uma das melhores novelas até 1965. Além disso, gosto muito de ficção científica antiga. Acho legal ver como o futuro era visto sessenta, setenta anos atrás.

O autor, C. M. Kornbluth, era considerado uma das maiores promessas da ficção científica, mas sua carreira foi brutalmente interrompida aos 35 anos, quando foi vítima de um ataque cardíaco fulminante.

A leitura é divertida até certo ponto e investe bastante no sarcasmo, especialmente por causa das idiotices que acontecem no futuro, mas há uma série de polêmicas.

A ideia principal já é bem complicada. É errado afirmar que pessoas inteligentes vão ter somente filhos inteligentes, e pessoas idiotas vão ter somente filhos idiotas. É errado afirmar também que pessoas idiotas vão sempre se unir a pessoas idiotas. E mais errado ainda é afirmar que pessoas idiotas sempre vão ter muitos filhos, ao passo que pessoas inteligentes sempre vão ter poucos filhos (o que fica implícito durante a leitura). Essa é só uma das demonstrações de preconceito que aparecem na história. Há ainda um episódio de preconceito racial, no qual o protagonista se recusa a cumprimentar um homem cujo nome parece ter origem africana.

Por fim, o próprio título, que pode ser traduzido como “A Marcha dos Idiotas”, indica um certo preconceito, fazendo referência a uma suposta hipótese de crescimento populacional misturada a uma panfletagem anti-comunista, chamada “The Marching Chinese”. Segundo essa hipótese, se a população da China fosse colocada em uma fila única, e marchasse por um único portão, a “marcha” prosseguiria para sempre neste portão, pois as pessoas teriam tempo de ter filhos, e esses filhos cresceriam e também teriam filhos, e assim por diante, antes que a última pessoa cruzasse o portão.

Essas polêmicas são, na verdade, a grande virtude da história. Kornbluth foi capaz de unir uma série de medos e preconceitos, apresentando uma sociedade diferente da que era comum na ficção científica da época. Não há uma sociedade pacífica, perfeita, nivelada por cima. Ao introduzir um homem sem escrúpulos e cheio de preconceitos apresentando uma “solução” para essa sociedade, o autor ainda conseguiu mostrar que, apesar de absurda, a humanidade no ano 7-B-936 não é tão diferente daquela dos anos 1950, pouco tempo após a Segunda Guerra, quando o mundo parecia muito mais perigoso do que realmente é.

Hoje, passados mais de sessenta anos após a publicação de The Marching Morons, com esse monte de tchu-tchus, tcha-tchas, lek-leks, Felicianos e Malafaias que nos rodeiam, talvez o futuro recheado de idiotices e preconceitos imaginado por C. M. Kornbluth não esteja tão distante daquele para o qual estamos nos dirigindo.

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