Duplo Fantasia Heroica 3

25/03/2013

duplo-fantasia-feroica_v03Ano passado, a Devir Livraria lançou o terceiro volume voltado à fantasia heroica do selo Asas do Vento.

Assim como os volumes anteriores, este traz mais uma aventura da Bandeira do Elefante e da Arara, brilhante criação de Christopher Kastensmidt com os carismáticos aventureiros Gerard van Oost e Oludara: O Desconveniente Casamento de Oludara e Arani. A segunda aventura, no entanto, é uma novidade. Simone Saueressig substitui Roberto de Sousa Causo e sua Saga de Tajarê, apresentando O Relato do Herege, aventura misturada com terror no Brasil Colônia.

Se você ainda não ouviu falar, a Bandeira do Elefante e da Arara conta as aventuras de um par nada comum de aventureiros: um escravo liberto e um aventureiro holandês que decidem enfrentar sozinhos os mistérios e perigos do interior do Brasil Colônia. Dando continuidade aos eventos apresentados na história anterior (veja aqui), O Desconveniente Casamento de Oludara e Arani, como o título já diz, conta a história do casamento do aventureiro com a índia tupinambá Arani. O problema é que a tribo toda está inexplicavelmente apreensiva com essa história toda de casamento e Arani, mesmo apaixonada, está relutante. O motivo é que tanto Arani quanto os demais membros da sua aldeia estarão condenados se o casamento realmente acontecer. Para vencer essa maldição e realizar o desejo de ter a mulher amada, Oludara terá que enfrentar, ao lado de seu companheiro europeu, criaturas não só perigosas como extremamente ardilosas. Dessa vez, não será só uma luta desesperada contra um monstro da floresta, mas os herois terão que usar a cabeça e se mostrar mais espertos que seus oponentes. A Iara, a Flor-do-Mato e o Curupira são as figuras folclóricas que aparecem dessa vez.

A história é muito boa e cheia de aventura. Gerard e Oludara são figuras bem construídas e carismáticas, e é impossível não torcer por eles. Kastensmidt demonstra uma enorme criatividade nessa aventura. Muitos autores “queimariam” o tema com uma nova luta contra um monstro da floresta, repetindo a fórmula que já funcionou antes. Ao invés disso, o que vemos aqui são os herois tendo que usar a cabeça para vencer a malandragem da Iara e a esperteza do Curupira. Lógico que há um pouco de pancadaria (estamos numa aventura no meio da floresta, afinal!), mas o que vale aqui é a astúcia dos nossos herois. Ponto para o autor, ponto para a Bandeira do Elefante e da Arara.

Mudando totalmente o tom, a segunda noveleta presente neste volume é uma verdadeira história de terror. O Relato do Herege conta a sina de um espanhol, descendente de mouros, desterrado em solo brasileiro no século XVII. Em sua terra de origem, Índigo Ruiz Lopez, acusado de bruxaria, escapou por pouco da fogueira. Seu castigo foi desembarcar num continente selvagem e totalmente estranho, onde a morte seria mais dolorosa e lenta. Em determinado momento, o protagonista lamenta sua sorte, afirmando que teria preferido a morte rápida e menos sofrida na fogueira da Inquisição.

Acompanhando um grupo de jesuítas e índios, Lopez chega a uma Missão controlada por Diego, um capitão cruel e autoritário. Num passeio pela floresta, Lopez e um grupo de índios são surpreendidos por um feiticeiro inimigo e um demônio invocado por ele. No desespero, o herege espanhol se vê forçado a agir de acordo com sua criação e usa seus poderes mágicos para invocar um Caapora, salvando sua vida e de seus colegas, mas ao mesmo tempo revelando sua real identidade. Quando a Missão se vê cercada por inimigos e vítima de um jogo político, o capitão Diego, ciente dos poderes de Lopez, o obriga a invocar o maior deus das terras brasileiras: Tupã. Assim como fez em Contos do Sul,  Simone Saueressig quebra aquela visão monótona e ingênua da mitologia dos nossos índios. O Tupã que ela nos apresenta é cruel, sanguinário, e não concorda com a ideia de “fazer prisioneiros”.

O tom da narrativa é melancólico, apresentado em forma de diário, e faz o leitor se envolver com o sofrimento do protagonista. Ao contrário da floresta animada e alegre apresentada na primeira história do volume, temos uma selva suja, abafada, cheia de doenças e criaturas más, onde o sofrimento está sempre presente. A narrativa cersce em tensão nos momentos de ação, para em seguida voltar à tristeza do protagonista, como se ele sempre estivesse procurando por algo que nunca irá encontrar.

A escolha dessas duas histórias para o terceiro volume de Duplo Fantasia Heroica foi perfeita. São mais dois exemplos da excelente fantasia que se pode criar com mitos brasileiros. Assim como os demais volumes da série, é uma leitura imperdível.

Duplo Fantasia Heroica
Autores: Christopher Kastensmidt e Simone Saueressig
Total de páginas: 123
Editora: Devir Livraria
ISBN: 978-85-7532-526-1


Contos do Sul

06/03/2013

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Li no começo deste ano este livrinho, ao mesmo tempo charmoso e aterrorizante, da escritora gaúcha Simone Saueressig.

A quarta capa diz que “é uma coletânea de contos fantásticos de fundo folclórico… A Iara, o Lobisomem, a Mula Sem Cabeça, o Diabo e o Saci se reúnem nestas páginas para oferecer aos leitores cinco histórias fantásticas repletas de Brasil.”

O livro faz alusão à obra do escritor gaúcho Simões Lopes Neto (1865-1916), em especial Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913).

Com exceção do Diabo, todas as figuras folclóricas representadas neste volume são tipicamente brasileiras, e a escritora faz um trabalho excelente em representá-las da maneira mais assustadora possível. Esqueçam o lado romântico de cada uma das lendas. Em Contos do Sul, elas aparecem assutadoras e mortais. Os finais não são felizes e podem gerar pesadelos aos mais desavisados.

O livro é curtinho e pode ser lido numa única sentada. Não vou comentar todos os cinco contos, pelo simples motivo de que curti muito ir descobrindo, a cada virar de páginas, pistas que me fariam entender qual era o folclore envolvido. Em alguns deles, só vamos saber no final do conto qual é o monstro da vez. Acho que é justo manter a surpresa para os futuros leitores.

A exceção é o conto O Saci, que não faz mistério nenhum quanto ao tema e é, na minha modesta opinião, o melhor de todos. De todos os pequenos detalhes que fazem deste conto uma obra-prima, o que mais me chamou a atenção foi a menção do Saci preso numa garrafa. Coisa que eu não via desde criança, quando assistia o Sítio do Pica-Pau AmareloO Saci começa com um circo chegando a uma pequena cidade do interior, atraindo a atenção de todas as crianças das redondezas. Um menino, apaixonado pela equilibrista do circo, decide que, para ganhar um beijo, vale mexer com o pequeno monstro que o avô tem guardado no fundo de um galpão. Sem dúvida, esse foi o Saci mais assustador que eu já vi.

Contos do Sul é um livro exemplar. Simples, gostoso de ler, e muito, mas MUITO bem escrito. Simone Saueressig dá um verdadeiro espetáculo ao provar que, em matéria de histórias de terror, nossa cultura não perde para ninguém. Na dedicatória que ela escreveu em meu exemplar, lemos: “espero que te faça bater forte o coração”. Na época, não acreditei que isso pudesse acontecer. Hoje me vejo forçado a rever minha posição.

O livro pode ser adquirido no site da autora, o Porteira da Fantasia.

Título: Contos do Sul
Autora: Simone Saueressig
Total de páginas: 96
ISBN: 978-85-913198-0-0


O Estigma do Feiticeiro Negro

05/03/2013

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O Estigma do Feiticeiro Negro, de Melanie Evarino e Miguel Carqueija, é um romance de fantasia publicado no final de 2012 pela Editora Ornitorrinco.

O romance é centrado nas aventuras de Gislaine Pétala, uma elfa nobre que abandona a floresta pacata em que sempre viveu e parte para o mundo dos humanos, em busca de conhecimento e um pouco de aventura. Acompanhada de Morte, seu dragão que serve de montaria e bicho de estimação, a princesa elfa acaba se vê envolvida por acaso numa guerra que pode mudar o destino do mundo.

A ação começa com a chegada da Elfa numa estalagem, de onde seu dragão é roubado por um sujeito misterioso. Na tentativa de recuperar sua montaria, Gislaine aos poucos vai se unindo a um grupo de personagens tão diferentes quanto inusitados: um anão invocado e briguento, um cavaleiro todo atrapalhado cuja fama de heroi vem sabe-se lá de onde, um hobbit ladrão, uma mestra espadachim, um mago incorpóreo e um índio amazônico. Juntos, eles assumem a missão de impedir que o sinistro Cavaleiro Negro dê continuidade a seus planos de dominar o mundo, despertando monstros ancestrais há muito adormecidos.

O livro é claramente voltado a um público infanto-juvenil, com diversas piadinhas e lições de moral,  cumprindo de maneira competente a missão de segurar o leitor até o final. Os personagens são estranhos, criativos, e surpreendentemente simpáticos. É uma mistura interessante, que foge aos padrões normais de um livro de fantasia. Não é um universo típico, totalmente medieval. Ao contrário, temos criaturas “tradicionais”, mas também temos um índio e até um pirata aparece em determinado momento. E para completar a mistura, Gislaine, a elfa, é cristã.

Os autores usaram todas as liberdades possíveis ao criar este “universo paralelo”. Já estou familiarizado com o trabalho de Miguel Carqueija, é fácil reconhecer seu dedo em algumas das atitudes ou das soluções apresentadas. Assim como em outras obras dele, temos uma mulher como protagonista, fortemente influenciada pelo seu lado cristão, tentando ensinar e passar adiante seus valores. Por outro lado, a co-autora Melanie Evarino é cosplayer, fã de mangás e RPG. Essas influências aparecem claramente na formação da equipe de Gislaine, e em alguns dos desfechos que vão aparecendo no decorrer do romance.

A princípio, essa mistura toda de personagens e estilos pode soar estranha, mas o resultado final é muito bom. O livro agrada bastante e diverte em vários momentos. O ritmo é acelerado e as aventuras da turma vão se sucedendo uma após a outra. Gostei e recomendo.

Um outro detalhe importante é o trabalho excelente feito pela Editora Ornitorrinco. O livro tem um acabamento muito bom, cheio de ilustrações e bem caprichado. Infelizmente, me parece que houve pouca divulgação desse livro. Vi um ou outro comentário nas redes sociais, mas muito pouca coisa. Temos aí um trabalho muito bom, unindo duas gerações diferentes de autores nacionais. Isso precisa ser valorizado.