Jarbas

04/04/2013

jarbas

Ano passado, durante a Odisseia de Literatura Fantástica em Porto Alegre, recebi de presente um exemplar de Jarbas, de Andre Bozzetto Jr., romance de terror lançado em 2011 pela Editora Estronho.

Da mesma Odisseia, eu trouxe um outro livro do autor, Na Próxima Lua Cheia, do qual gostei bastante. Mas Jarbas acabou entrando na minha quase infinita fila de leitura, e aí… bom, se não tomar cuidado, acaba sendo sugado para o interior de uma singularidade e desaparece de vez.

Mas que bom que isso não aconteceu! Jarbas é uma leitura excelente, um terror de verdade, que atira aos leitores uma profusão de crueldades e insanidades sem tamanho.

O livro conta a história de Jarbas, um garoto mau por natureza, no interior do Rio Grande do Sul, que tira a “sorte grande” quando consegue ser transformado em lobisomem. No comecinho, a impressão que o leitor tem é que o menino é arteiro ou simplesmente um traquinas que não mede as consequências de seus atos. Essa impressão dura pouco, no entanto, e logo nas primeiras páginas do livro, desobrimos que, se há um adjetivo para descrevê-lo, é simplesmente esse: mau. Muito mau.

A história do lobisomem é dividida em cinco partes, que contam desde o seu surgimento (a “Natividade Licantrópica”) até o ponto em que ele passa a ser odiado não só pelos poucos humanos que têm conhecimento de sua existência, mas também pelos demais lobisomens da região. Em determinados trechos do livro, as histórias são apresentadas como pequenos “contos” que até poderiam ser lidos de maneira independente, sempre apresentando as crueldades do lobisomem Jarbas. Um assassinato aqui, outro ali, cada vez com mais requintes de crueldade. Jarbas é um lobisomem que simplesmente mata por matar. Mata porque gosta e sente prazer.

Sua maldade e sede por sangue não têm limites, até que ele acaba fazendo uma série de inimigos. Tanto humanos que querem vingança pela morte de entes queridos, quanto uma sociedade secreta de lobisomens que vive “muito bem, obrigado”, no centro de Porto Alegre, mas passa a temer a excessiva exposição que os assassinatos em série vêm ganhando. O garoto (mesmo após algumas décadas, ele ainda mantem a forma de um garoto quando é humano) passa a ser perseguido de maneira violenta, e responde com mais violência numa escalada que sai da capital e ganha o interior, arrasando com tudo que aparece pelo caminho. O resultado é uma banho de sangue sem precedentes.

Mas a grande verdade é que Jarbas torna-se uma figura odiada. Inclusive pelo leitor.E essa é uma das grandes virtudes do texto de Bozzetto: fazer com que o leitor, assim como as demais pessoas que o cercam, passe a odiar o lobisomem. Até mesmo os demais lobisomens, verdadeiros assassinos em série, passam a ser exemplos de bom comportamento perto de Jarbas.

Durante toda a narrativa, o estilo de Bozzetto permanece fiel à sua principal característica, que é “contar” a história. Ele abusa da violência, simplesmente porque é assim que quer que o leitor enxergue o protagonista. De maneira geral, é visível que a escrita está mais madura e consistente, mostrando que o autor trabalhou duro para aperfeiçoar seu texto. O resultado pode ser percebido na maneira como o leitor se envolve com o texto, com as descrições, com as personagens.

O livro agrada muito, a leitura flui bem e segura o leitor página após página. Mas como toda (boa) história de lobisomem, haja estômago.

Um detalhe que me agradou e mostra como o autor consegue fisgar seus leitores: estive no centro de Porto Alegre um ano atrás, e, acreditem, o livro me fez querer visitar alguns lugares novamente.

Ah, de dia, claro. Porque após a leitura de Jarbas, a noite de Porto Alegre nunca mais parecerá a mesma.

Leitura mais do que recomendada!

Título: Jarbas
Autor: Andre Bozzetto Jr.
Editora: Estronho
Total de páginas: 244
ISBN: 978-85-64590-04-5

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Na Próxima Lua Cheia

06/09/2012

Li recentemente este livro, do gaúcho André Bozzetto Jr., publicado em conjunto pelas editoras Estronho e Literata.

Na Próxima Lua Cheia, como o título dá a entender, é uma história de lobisomem. Gostei bastante do livro, especialmente por trazer um tipo de monstro que, apesar de bem conhecido, é pouco aproveitado.

Nessa novela de pouco mais de cem páginas, o autor abusa dos clichês, mas sem cair no ridículo. Os lobisomens que conhecemos aqui são ao mesmo tempo crueis e racionais. Sabem do risco que correm ao se exporem. Têm medo da humanidade como um todo e tentam se isolar ao máximo, mas não fogem da briga quando se veem acuados.

A trama gira em torno do jovem Lucas Matos, que é obcecado por uma história contada repetidas vezes por seu pai, que até o último dia de vida afirmou ter sido atacado por lobisomens no interior do Rio Grande do Sul, mais de cinquenta anos atrás.

Talvez para ter certeza de que o pai não era louco, mesmo morando em São Paulo, Lucas reúne dois amigos e os convence a viajar até a pequena comunidade gaúcha onde o suposto ataque ocorreu. De uma maneira muito mais fácil do que esperava, Lucas consegue solucionar o mistério que envolve a história contada por seu pai. E é aí que as coisas fogem do controle. Lucas e seus amigos entram num verdadeiro pesadelo.

A escrita de Bozzetto é apresentada num ritmo ágil e envolvente, com um texto espontâneo, narrando uma história simples mas que traz alguma reviravoltas interessantes. As últimas trinta páginas trazem diversas sequências de luta, com muita violência e sangue, que vão ficando cada vez mais intensas, até um final imprevisível e muito bem escrito.

Em geral, os lobisomens são muito irracionais e violentos. Enquanto estão transformados, seu lado humano fica tão escondido que não há espaço para a sensualidade e o galanteio típico dos vampiros (fazendo a comparação mais óbvia). Suas histórias quase sempre dão no mesmo lugar: um longo rastro de sangue e mortes. Na Próxima Lua Cheia não é exceção, mas graças à sua simplicidade e à visível intenção do autor de apenas contar um história, torna-se uma leitura bacana.

Opa… eu terminei o parágrafo acima dizendo que é uma “leitura bacana”, mas isso só é válido se você quer ler uma verdadeira história de terror.  Na Próxima Lua Cheia é, acima de tudo, uma história de terror. Vale a leitura por ser uma história de verdade, assustadora por si só, sem cair no erro comum de despejar na frente do leitor uma avalanche de cenas grotescas e sem sentido.