Filhas das Estrelas

Filhas das Estrelas, lançado no finalzinho de 2011 pela Editora Estronho é o novo livro do escritor e ufólogo Renato A. Azevedo.

O autor já é figura carismática nos eventos de ficção científica em São Paulo, e é conhecido pela sua predileção por temas relacionados à ufologia. O primeiro livro publicado pelo autor em papel é De Roswell a Varginha (Tarja, 2008), uma clara homenagem ao seriado Arquivo X, que cumpre bem o seu papel e diverte, apesar de algumas situações terem ficado artificiais ou exageradas demais.

Esta nova publicação de Azevedo mostra uma grade evolução do autor em relação à anterior. É, na verdade, a reunião de sete contos (seis deles, inéditos), que exploram de maneira inteligente e criativa o mundo da ufologia e das conspirações governamentais. A impressão que tive foi que, ao elaborar um livro compostos por contos, o autor sentiu-se mais à vontade para realizar seu trabalho. Isso é até fácil de se explicar, já que Azevedo está mais habituado ao conto do que ao romance. Foi escrevendo histórias curtas na revista Sci-Fi News, além de artigos voltados à ufologia,  que ele ficou mais conhecido no fandom. Suas ideias são boas e criativas e parece que se adaptam bem a um formato mais curto.

O autor tem algumas qualidades que eu aprecio: sua linguagem é simples e coloquial, sem que o texto fique mal escrito; seu trabalho geralmente é ambientado no Brasil, o que é sempre muito bom; seus personagens, mesmo quando abusam de clichês, são convincentes. Filhas das Estrelas é uma ótima leitura, com contos bem acima da média do que eu tenho visto por aí. De uma maneira geral, os contos estão num mesmo universo, com os mesmos personagens aparecendo  de maneira recorrente. Alguns desses personagens, inclusive, já haviam aparecido no primeiro romance do autor. Isso dá uma certa consistência à sua obra.

O livro abre comA Marca, que mostra o que acontece numa cidadezinha do interior onde começam a surgir marcas no solo, sugerindo que a região é visitada por extraterrestres. O preconceito e o medo da população, no entanto, dificultam as investigações. Um conto bacana que mostra exatamente o tipo de leitura que teremos daí em diante. Sem muitas novidades, sem fugir de fórmulas conhecidas, mas muito bem escrito.

Em seguida, temos Traição. Neste conto cheio de reviravoltas e alternativas, um mercenário recebe a incumbência de transportar uma encomenda misteriosa que parece ser objeto de desejo de tudo que é organização, governamental ou clandestina. O conto tem ritmo intenso e um final muito bom.

O terceiro conto é O Senador, que traz o mesmo mercenário do conto anterior, dessa vez buscando vingança contra quem o traiu no passado. A vítima, um Senador da República, esconde preciosos segredos sobre o caso do ET de Varginha, o que complica a execução dos planos de vingança.

Irmãos é o próximo conto. Uma fazenda prestes a ser vendida sofre com ataques de uma criatura misteriosa que supostamente é o chupa-cabras. Brigas de família, crianças estranhas, muito sangue e suspense reunidos num ótimo conto.

Em seguida, temos o conto que empresta o título ao livro, Filhas das Estrelas. Essa é sem dúvida a melhor história do livro. O líder de uma seita religiosa afirma ter recebido de alienígenas a missão de salvar o mundo. Para isso, conta com duas garotinhas gêmeas, de origem desconhecida, e que aparentemente possuem poderes de cura. A trama reúne ufólogos, policiais federais, militares e jornalistas. O autor reuniu uma série de situações comuns no Brasil, misturou tudo e temperou com uma série de clichês de filmes de ação. O resultado agrada, e muito.

O último conto inédito é O Clone de Sara Bernardes. Esse talvez seja o elo fraco da corrente. E o motivo é simples: Azevedo abandona a ufologia e as conspirações para se aventurar numa história legitimamente cyberpunk. Todos os elementos clássicos desse gênero estão lá: grandes corporações, altíssima tecnologia, realidade virtual, um futuro não tão distante assim. A condução da trama não é tão interessante, e acaba ficando um pouco confusa, o que fez com que eu não aproveitasse tanto esse conto. O conto traz uma editora de grande porte, buscando de todas as formas obter lucro com a obra de maior sucesso literário de todos os tempos.

Por fim, temos de volta um conto publicado pela primeira vez na revista Sci-Fi News em 2002, Zé da Pinga. Este é um conto que pode ser considerado um “clássico” na FC ufológica brasileira. Passado numa cidadezinha do interior, conta a história de um daqueles sujeitos que vivem em volta dos botecos, pedindo esmola para comprar bebida. O famoso “bebum”. Neste caso, o bebum tem um passado cheio de histórias, envolvendo abduções e conspirações.

A maioria dos contos neste livro traz um grupo de anti-herois muito legal. São três sujeitos que entendem tudo de tecnologia e conspirações, estão sempre atentos a tudo e aparecem quando menos se espera. Suas descobertas e denúncias são publicadas num jornal clandestino, O Farol, e eles sempre dão um jeito de ajudar os ufólogos em situações complicadas. Qualquer semelhança com o grupo Os Pistoleiros Solitários, que fazia participações esporádicas no seriado Arquivo X (chegando até a ganhar uma série solo posteriormente) não é mera coincidência. Eles já estavam presentes no primeiro livro do autor, mas de uma forma um pouco mais caricata, quase copiando mesmo Arquivo X. Agora, nos contos de Filhas das Estrelas, os editores d’O Farol aparecem de forma mais independente. Uma ótima sacada do autor.

Filhas das Estrelas é uma ótima ideia de leitura se você estiver interessado em FC de qualidade. Além disso, foi escrito por um autor jovem, que mostrou uma boa evolução em relação ao trabalho anterior, e, por isso mesmo, deve ser observado.

 

5 respostas para Filhas das Estrelas

  1. M. D. Amado disse:

    Como sempre, uma ótima resenha. Cita pontos negativos, sem torná-los a estrela da resenha. Respeito muito seu trabalho exatamente pelo bom senso e equilíbrio das palavras.

    Muito obrigado pela resenha.

  2. renato alves disse:

    Se o livro for tão impactante quanto a capa……aprovado.

    Abraços

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